segunda-feira, 15 de junho de 2009

Saracoteio

Vamos acompanhar o homem de guitarra no show.
Vamos cantar e esquecer da vida a cada nota da pauta.
Brincar e rodar feito bússola sem norte.
Pode ser que venha a sorte.
E mesmo que não venha, não importa.
O momento, o fragmento de um momento.
Um sorriso eterno.
É o que busco e ponto.

O mundo e o coração...

Ontem me pediram um mundo. Em troca ofereci um coração. Meio amargo, é sabido. Empedernido, graças à falta de chuva e vento. Nunca mais vi orvalho na grama, nem o canto do sabiá que me ensinava a cantar pelas manhãs.
Quem dera aceitasse a minha oferta...
O outro dia seria euforia. Os sorrisos mais sinceros, da mais pura e fraterna alegria.
Quem dera não fosse sonho vestido de ilusão. Uma singela canção sem melodia.
Quem dera fosse magia.
Quem dera fosse magia...

sábado, 13 de junho de 2009

Lágrima

Eu lembro do dia que liguei para uma puta e ela me chamou de amor. Eu precisava daquilo. De modo que criei o hábito de combinar preços e horários, compulsivamente, só para no fim receber a tão calorosa palavra...
Era o combustível que eu necessitava.
O que me faltava era justamente o que me deixava em torpor.
Passei a ter a sensação de que era amado, sem ser.
A doce ilusão que vivemos constantemente, mas de forma melindrosa e sabida.
Nunca a vi.
Nunca pretendo vê-la.
Só a fala me basta e me consome.
Me distrai quando penso estar num poço vazio e frio.
E assim vou me perdendo.
Distanciando-me do calor da presença.
Apagando a chama com a chuva da nuvem de algodão,
que acreditara eu em sonhos ser comestível.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Luz

A última pessoa saiu sem bater a porta, mas tratou de apagar a luz.
Não houve estalar de dedos ou mágica que desse jeito.
Ele estava só, apesar da presença insinuante do futuro incerto.
Queria poder falar, mas era sabido que não teria uma alma viva (ou morta) que o ouvisse nessa hora.
Resta esperar o amanhecer profetizado nas cartas.
Resta esperar a lufada que empurre o barco para qualquer outro lugar...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pecado

Eu sou o pecado.
A carne podre.
Miro, inconsequente, a próxima pedra.
E acerto.
Palmas.
Desconcertos.
Aquele violino velho desafinou de novo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Antes

Os sentimentos do comum são incomuns demais até.
Sublimes que beiram o sempiterno.
Austero.
Pois tudo o que o tempo leva, o tempo toma.
E não traz mais...

Que a pedra ricocheteie na água
e não afunde.
Que dê a volta no mundo, antes que seja tarde...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Romance

Beijo a flor que o beija-flor não ousou encostar,
porque é minha.
Doce som ao luar,
que a lua assistiu desvanecer com o silêncio do olhar...
Menina...

domingo, 7 de junho de 2009

Pedinte

A minha casa é a cidade inteira, - falou o mendigo poeta.
O meu teto é o céu que se pinta, muitas vezes, de estrelas. Eu guardo um sonho em cada uma delas. As mais reluzentes são os grandes projetos. Eu espero, sinceramente, realizá-los algum dia.
O meu chão é a rua ao lado da sinfonia inconstante das buzinas dos carros. É o mesmo solo frio que apara os meus sentimentos na hora que o sono vem.
Acordo e nunca estou no mesmo lugar. Entretanto, o labirinto das avenidas não é mais mistério. É enigma para os demais, apenas.
As cicatrizes que carrego nas diversas partes do corpo são indeléveis. Principalmente as que trago no peito. Afinal, pele não é papel. Os traços não somem com borracha.
Escrevo com giz no concreto. Torço para o vento não levar o pó. Se for para levar algo, que me leve dessa vida medíocre e me mostre algo novo.
A moeda que me dão não serve mais.
A manhã, a tarde, a madrugada.
O silêncio.
Depois dos passos apressados, a calmaria.
A elucubração ferina.
A solidão.
Dor renitente que amortiza o coração.
Lamento cantado em tango que ninguém ouve.
Eu quero alguém que me chame para dançar...

sábado, 6 de junho de 2009

Sem título

Sinto o zéfiro.
Meu olhar embaça sem os óculos.
E o mundo turvo me incomoda.
Não vejo detalhes, nem cores.
Apenas quadros com pingos de chuva.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Prólogo

Só consegue escrever o que mata? Na carne, na unha escarnecida. A jocosidade sumiu nos labirintos do sorriso que não volta.
Diga algo engraçado e faça a platéia muda rir.
Os aplausos tratarão de vir logo em seguida.
Daí então você acorda.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ao fim, com apreço

Cansei de acompanhar a areia da ampulheta.
Percebi que não posso controlar o tempo como eu imaginava.
Esta farsa me retirou alguns anos de vida,
trazendo a velhice inevitável.
Sonhei que podia ser eu o escolhido, o imbatível e o austero.
Pensei ser Deus,
mas errei e não nego.
O que tenho é só uma ampulheta velha e uma cadeira comida pelos cupins.
Há silêncio na sala.
Sempre houve.

Entregue ao nada, debato somente com meus pensamentos...

terça-feira, 2 de junho de 2009

Utopia

O alvorecer está sendo trabalhado com tanto esmero que demora.
Dizem certas línguas que ele virá brilhante, apontando a sua luz incandescente para os de péssimo coração.
Estes evaporarão num piscar de olhos. No outro piscar, uma terra nova.

Utopia.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Desventuras II

Me falta inspiração, irmão.

- Eu percebi. Por que não pára de escrever?

Escrever é minha vida, minha razão.

- E o que mais? Já viu o dia hoje?

Como dia? Está noite lá fora.

- Por isso não escreve mais. Seus olhos estão cobertos de pretume.

E o que isso afeta?

- O bom poeta precisa observar.

- Se mantêm os olhos fechados, o que enxerga?

Óbvio que é o nada.

- Viu, já deu ensejo à poesia...